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Este artigo trata do papel central que a liberdade tem na nossa forma de
sentir a justiça. Segundo Ruut Veenhoeven, que já há 25 anos investiga a
felicidade, é mesmo o factor mais importante para a alcançarmos. Não se
passará o mesmo com os animais ?
Só nos damos conta da sua importância, uma vez que vivemos num país
democrático, quando estamos em perigo de a perder. Basta pensar na
Segunda Guerra Mundial ou até em situações mais recentes como a prisão
"preventiva" de demonstrantes quando do Eurotop, os raptos que duraram
anos no Líbano, ou da ETA na Espanha, ou o comércio de mulheres ligado à prostituição no nosso próprio país.
É tão fundamental e evidente para nós que a liberdade é um direito
básico que temos a tendência a nem sequer lhe dar atenção. Passamos por
ela de forma negligente. E isso é um erro, porque negligênciá-la é
imoral, mesmo em referência aos animais.
Assim como ninguém pode exigir doutra pessoa comportamentos específicos
"livres" também os animais devem gozar da autonomia de se comportarem da
forma que lhes é natural, até mesmo quando esse comportamento mais
parece ser um automatismo, um comportamento puramente instintivo.
A forma de os exercer é irrelevante quanto à existência destes direitos.
Também é irrelevante que os animais não podem comunicar connosco sobre o
conceito. O direito à liberdade é como que um dado pré-estabelecido ou
um princípio. |
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A liberdade é um direito básico
O que é um direito básico ? Os direitos básicos estruturados na
sociedade são a expressão do princípio que as autoridades num estado de
direito têm uma responsabilidade dupla quanto à liberdade dos cidadãos.
Por um lado devem respeitá-la. Pelo outro as autoridades têm o dever de
criar as condições necessárias ao funcionamento livre do cidadão. |
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Porque é a liberdade tão importante?
Para encontrar a resposta vamos consultar as fontes donde habitualmente
extraímos informações sobre o que é ou não aceitável : A Constituição, a
religião, a natureza, as regras de comportamento (regras de etiquêta e
normas de comportamento em sociedade) e nós próprios: Aquilo que
sentimos.
Constituição
Geralmente na enumeração dos direitos básicos garantidos na Constituição
encontramos em primeiro lugar o tema da igualdade perante a lei. Os
artigos seguintes referem-se à liberdade. Um direito básico para os
seres humanos significa um direito indiscútivel. Para os seres humanos é
necessário que na lei (e para alguns na religião) este direito seja
registrado, porque temos a tendência a ignorar os limites dos outros, ou
a violar esses limites ou a estabelecer limites demasiado restritos
Religião
A história da liberdade como base da legislação já vem de tempos muito
anteriores a Cristo. Também na religião a liberdade é um tema necessário
e sempre presente que viabiliza regras de conduta que os crentes impõem
a si próprios. Assim quem segue o adágio "O que não queres que te façam
não deves fazer aos outros" concordará com a tradução "Assim como queres
que a tua liberdade seja respeitada, respeita a liberdade dos outros".
Em 1988 foi publicado pela secção para a Igreja e Sociedade do Conselho
Mundial das Igrejas um relatório sobre a relação entre a Igreja e os
animais com o título "Libertação da Vida". Também aqui se advoga a
liberdade do animal e a libertação dos seres humanos e dos animais. |
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Saúde
A importância da liberdade é semelhante à da saúde. A saúde é também uma
forma de liberdade. A liberdade e a saúde são também chamadas
necessidades fundamentais, que assim como a segurança, a compreensão, o
afecto, a recriação e a possibilidade de expressão da criatividade
definem a qualidade da nossa vida do ponto de vista biológico, social e
intelectual.
Não sabemos de certeza se os animais podem sofrer e adoecer se os
privamos da liberdade, mas sabemos que os animais que vivem na natureza
tudo fazem para não a perderem e ficarem presos. Que o bem-estar animal
sofre da falta de liberdade ou da falta de possibilidades de expressar o
comportamento que lhes é natural é geralmente deduzível do comportamento
anómalo que os animais passam a apresentar. Um exemplo típico é o das
voltas constantes e obsessivas que os ursos polares começam a fazer
quando a sua liberdade de movimento é restringida.
Natureza
Na natureza o direito à liberdade é intrínseco. O termo "a livre natureza"
fala por si. É o ser humano que ofende este direito intrínseco à própria
natureza.
A falta de liberdade na natureza só aparece quando devido a doença ou
velhice as forças se esvanecem, e então a morte libertadora já não dista
muito. Nenhuma das muitas espécies de animais vertebrados que vivem na
natureza rouba a liberdade de qualquer outra, excepto momentâneamente,
para se alimentar. Curiosamente, quando os animais se comem uns aos
outros, muitos carnívoros e vegetarianos que se opõem a matar animais não
põem objecções.
Sentimento
Por fim há os sentimentos. Os nossos sentimentos dizem-nos que devemos
defender um grupo que é forçado a viver numa situação injusta. A falta
de liberdade é uma destas injustiças. |
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Liberdade, ética, dever e responsabilidade
A liberdade é para os seres humanos uma base sólida da ética: O que
aumenta a liberdade é bom, e o que diminu a liberdade é mau. Ou seja: A
maior liberdade para o maior número de indivíduos (seres humanos e
animais). Deve ser aqui mencionado que a liberdade não pode existir sem
que limites sejam estabelecidos. Não é possível definir onde estes
limites se encontram de forma definitiva em termos de tempo e espaço,
uma vez que que uma maior liberdade de escolha significa também mais
responsabilidades. Temos, é claro, que diferenciar em que consiste a
fatalidade e a escolha própria e livre. Somos responsáveis pelas nossas
escolhas mas também por fatalidades, quando é possível de forma razoável
demonstrar que não foram tomadas as previdências necessárias. |
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Não é toda a gente que se sente bem possuindo muitas responsabilidades,
e por isso há quem escolha consciente ou inconscientemente menos liberdade
para por fim se sentir mais livre.
Cada um terá de decidir e informar os outros dos limites que coloca em
relação aos outros. É considerado indesejável e deseducado obrigar os
outros a estabelerem estes limites
Ninguém é obrigado a ocupar-se com os animais, desde que os deixe livres
ou não foi ele próprio que o encarcerou, prejudicou ou feriu. Os donos
do gado têm a obrigação de cuidar bem dele. Os animais não têm deveres,
não são eles que mantêm outros animais encarcerados. |
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Os limites da liberdade
O jurista americano Peter Berkowitz refere-se no seu ensaio "The Liberal
Spirit in America" (na revista Policy Review) ao paradoxo da liberdade:
Quanto mais liberdade conquistamos mais tendemos a rejeitar qualquer
autoridade como sendo arbitrária, o que por sua vez, e contra as nossa
intenção tende a enfraquecer a nossa liberdade.
Não é por nada que que alguém que trespassou certos limites prescritos
pela sociedade recebe como castigo a perca da sua liberdade. O
transgressor é castigado com a perca do que lhe é mais querido: A sua
liberdade. Para o ser humano é válido que esta em princípio é livre,
desde que certos limites não sejam transgredidos. |
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Quanto aos animais é mais complicado constatar se houve transgressão dos
seus limites. Não é possível dialogar com eles, e os animais dispõem de
recursos limitados para definir estes limites. Só podem por vezes mostrá-
lo (se os bicos garras ou dentes não foram antes cortados ou arrancados)
passando a vias de facto.
A liberdade não é dispensada sem esforço. A liberdade humana tem limites
físicos, a alma no sentido metafísico não tem limites.
Estabelecer e tentar ampliar o espaço próprio é uma tendência natural.
Quanto ao limitar do espaço dos outros por meios físicos, uma invenção
humana, têm os seres humanos de apresentar contas e razões aos outros
seres humanos. Algumas pessoas consideram que quanto a animais não têm
de se justificar, excepto em casos de maltratos voluntáriamente
infligidos. Quais são as regras jurídicas? |
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No espírito da lei
Segundo a letra da lei moderna o direito do animal não é infringido,
porque o animal é considerado apenas um objecto de direitos e nào um
titular de direitos. Quanto ao espírito da lei (constitucional) o
responsável pela bio-indústria tem um comportamento que podemos
classificar como criminoso, porque no espírito da lei a liberdade para
todos está constantemente presente: Liberdade e igualdade (e
fraternidade). Quem se alimenta com produtos da bio-indústria pode ser
comparado com quem compra artigos roubados: Sabe-se que qualquer coisa
não está em ordem, mas compra-se porque é barato.
Objecto ou sujeito?
Quanto à Constituição não faz diferença se é um porquinho-mealheiro ou
um porquinho autêntico que se deixa ficar mêses a fio na pocilga. Entre
coisas e animais não é feita discriminação
Os direitos básicos pesam mais
Todo o apelo a criar excepções à aplicação dos direitos básicos, ou a
ignorá-los é imoral. Não faz diferença se este apelo se baseia em
motivos económicos ou emocionais ou se a bio-indústria é defendida
porque os postos de emprego ou o rendimento da nação ficam "ameaçados".
Os direitos básicos devem prevalecer do princípio ao fim. Considerar os
interesses económicos como sendo equivalentes é uma imoralidade. |
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A defesa dos direitos básicos
Para estabelecer limites aos elementos criminosos temos a polícia e a
justiça. São elas que têm os meios de coerção necessários para garantir
a defesa destes limites contra quem não os respeita. Por sua vez a
polícia e a justiça têm o dever de seguir as regras respeitantes ao
período de limitação de liberdade, que deve ser tão curto (ou longo)
quanto necessário. No nosso sistema de direito a liberdade é de tal forma
garantida que até um criminoso a ela tem direito. Esta é a força do
princípio da liberdade que se exprime paradoxalmente: Se dialogar é
infrutífero, pode-se e tem-se o direito e o dever de forçar os outros a
respeitar os limites, por respeito a princípios morais e éticos. A
sociedade tem o dever de proteger os mais fracos. Também protegemos os
que sofrem de deficiências. O animal é em relação à bio-indústria que o
explora o partido mais fraco, que não se sabe defender. Na natureza o
indivíduo está sujeito aos direitos do mais forte, mais astuto ou mais
veloz. Defendendo o partido mais fraco contra nós mesmos e garantido-lhe
a liberdade superamos a natureza. Assumindo e abusando o direito do mais
forte por exemplo na bio-indústria ou na caça desportiva, o ser humano
recai na vileza dum comportamento de desamor e de indiferença. O facto
que um caçador ou um criador de porcos tenha interesse em que os animais
sejam saudáveis e estejam bem alimentados, deve ser visto mais como um
interesse de ordem desportiva ou económica do que como interesse genuíno
pelo animal. |
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Políticas inconsequentes no que respeita aos animais
O homem é essencialmente uma espécie animal. Tal como os seres humanos,
os animais são dotados de consciência e inteligência. Estão apenas menos
desenvolvidas e usamos outros nomes quando a elas nos referimos. O que
não quer dizer que o ser humano habita um plano superior; significa
apenas que o ser humano tem mais poder que o animal. Podemos comparar a
relação com a de crianças em relação a adultos. Infelizmente o animal
pouco consegue explicar-nos do que sofre com a forma como os seres
humanos o (mal)tratam. Também se pode dizer que os seres humanos são
muito pouco capazes de decifrar os sinais do sofrimento que os animais
emitem. Por fim podemos dizer que não temos qualquer base para afirmar
que o homem tem mais direitos básicos que os animais. O animal tem o
mesmo direito à liberdade. |
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O direito à liberdade é válido incondicionalmente
Não é necessário ganhar o direito à liberdade, é uma dádiva
incondicional . O ser humano tem deveres, mas estes têm a sua origem na
maior responsabilidade que este por vezes assume.
Para o animal individual a liberdade não é algo evidentemente garantido.
Se a espécie animal tem interesse económico, é gostosa para acariciar ou
gostosa para comer, então o ser humano torna-se inconsequente. Um animal
na bio-indústria não pode fugir ao cativeiro, nem comprando a sua
liberdade nem protestando, nem por adoecer nem encontra uma forma de
redenção
Quanto aos animais na "livre" natureza somos tão generosos (excepto os
caçadores) que os deixamos incondicionalmente em liberdade. Por vezes
planificamos esta liberdade dividindo os espaços respeitando as
estruturas ecológicas básicas. Criamos trilhos que facilitam dentro de
certos limites a liberdade de se deslocarem para garantir a continuidade
da espécie.
Enquanto o uso económico dos animais se "limita" a criar protecções
rodeando os prados para conter os animais, poucos se preocuparão. O
problema torna-se mais grave quando em casos de restrições extremas ao
espaço reservado para cada animal, pouco resta da liberdade de
movimentação. |
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A bio-indústria deve ser restringida, ou melhor ainda, suprimida
Temos o direito de estabelecer limites à bio-indústria, ou estaremos a
limitar demasiado o direito à liberdade da bio-indústria ? Baseados na
constatação da posição central que a liberdade ocupa nos principais
aspectos da vida, não podemos deixar de concluir que a liberdade, mesmo
para um animal com interesse económico é um direito básico.
O que não é a nossa intenção
A notar bem: Não estamos a defender o direito a não ser comido ou à vida
em toda e qualquer circunstância, este direito nem sequer é reconhecido
para os seres humanos na nossa Constituição. Não é reconhecido para
podermos em casos extremos (como em guerra ou em último recurso) manter
o direito de matar outra pessoa que nos quer roubar a liberdade.
Um indivíduo específico, por exemplo um vegetariano, pode considerar que
um animal tem o direito a não ser comido por ele. Este direito de comer
carne não pode ser negado a outra pessoa. Também não defendemos um
tratamento igual ou (como) de iguais entre seres humanos e animais. Isto
nem sequer é necessário. Como também não é necessário demonstrar a
priori que os animais podem sofrer, ou que têm sentimentos ou
consciência, ou um valor intrínseco, para que sejam considerados
portadores de direitos básicos. Também não exigimos que as pessoas
demonstrem que o seu bem-estar possa sofrer antes de respeitarmos os
seus direitos básicos, mesmo tendo em conta que isso é muito mais fácil
para qualquer pessoa do que demonstrá-lo quanto a um animal. O que
defendemos são direitos iguais para todos os animais. Os direitos dos
animais referem- se a uma vida digna dum animal, tal como um ser humano
quer ter uma vida digna dum ser humano. |
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Temos de ser consequentes
Nós consideramos que os direitos dos animais na bio-indústria são
ofendidos pelas limitações extremas da sua liberdade de movimentação,
pela impossibilidade de expressão de comportamento natural, pela engorda
que os força a ganhar peso de forma anormal, e por alimentar herbívoros
com os os restos de matadouros. E além disso existe uma sobreprodução: A
maior parte da produção é exportada. Assim o sofrimento animal é ainda
mais exarcebado, e a injustiça feita ainda mais grave. Desmontar a bio-indústria e a exportação dos seus produtos, e a sua substituição por
pecuária de base ecológica é uma exigência mínima para o tratamento
correcto a dar aos animais das explorações agropecuárias
Na bio-indústria e por vezes na política o direito à liberdade é
ignorado ou como que silenciado. Numa sociedade saudável que respeita os
seus direitos básicos e que os quer manter, poderá haver ainda quem coma
carne, mas os animais antes de serem abatidos terão vivido uma vida
digna de um animal. Quanto às autoridades isto implica o dever de
transformar a totalidade da bio-indústria em pecuária ecológica, onde a
liberdade é a prioridade na base do bem-estar. É um encargo das
autoridades pôr limites aos abusos à liberdade que os seres humanos
cometem em relação aos animais. Só se as autoridades estenderem de forma
coerente a protecção da lei para abranger os animais será possível
terminar a injustiça. Desta forma as autoridades também reforçariam a
sua base legítima: O poder só pode ser aplicável e aplicado por quem
cuidadosamente recusa o seu abuso.
Quanto ao consumidor é válido que não é comer carne que é um mal, mas o
comer de carne "poluída". Somos livres na nossa alimentação, mas se
escolhermos carne oriunda da bio-indústria somos co-responsáveis pela
manutenção das ofensas aos direitos básicos dos animais. |
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Uma parte do site está publicada num livro que pode ser imprimido e comprado. O título é "A liberdade é um direito básico dos animais". Interessado? Visite Lulu.com. |
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