É necessário abater um animal sem atordoamento?
Os muçulmanos só comem carne de animais abatidos segundo as regras islâmicas (halal). O pescoço é cortado com um único golpe para que o sangue possa escorrer. O judaísmo também conhece um abate ritual.
Se um animal não for atordoado antes, está plenamente consciente quando o pescoço é cortado. Só perde a consciência quando o cérebro recebe pouco oxigénio. Nas ovelhas e cabras isso demora geralmente até cerca de vinte segundos. Nos bovinos pode demorar mais de dois minutos. Por isso, poupar-se-ia muito sofrimento se também no abate ritual cada animal fosse atordoado antes.
Abate ritual de ovelhas num matadouro. Foto: Gerard Damoiseaux
Atordoamento e halal são compatíveis
No abate comum, o animal é primeiro atordoado. Os bovinos recebem normalmente um disparo com uma pistola de êmbolo retráctil: uma haste de aço danifica o cérebro, de modo que o animal fica imediatamente inconsciente. As ovelhas e os porcos são muitas vezes atordoados com eletricidade. O animal ainda não está morto. O coração continua a bater e é isso que se pretende: assim o animal sangra bem depois do corte.
Segundo os preceitos islâmicos, o animal tem de estar vivo no momento do abate e não apresentar lesões externas. O atordoamento com um choque elétrico é reversível: se o pescoço não for cortado a seguir, o animal recupera a consciência. Por isso muitos sábios islâmicos consideram este atordoamento permitido. Outros opõem-se. A corrente tem, no entanto, de ser suficientemente forte, senão o animal fica apenas meio atordoado.
A prática mostra que atordoamento e halal são compatíveis. Em Portugal, 99,9 por cento dos animais abatidos segundo o rito halal em 2023 foram atordoados antes. Em Inglaterra e no País de Gales eram 88 por cento em 2018. Nos Países Baixos, 68 por cento dos animais abatidos para a Festa do Sacrifício em 2025 foram atordoados antes, contra 54 por cento em 2023.
A Festa do Sacrifício
Na Festa do Sacrifício (Eid al-Adha, em turco Kurban Bayramı) os muçulmanos recordam a história de Ibrahim (Abraão), que também está na Bíblia. Deus pôs Ibrahim à prova pedindo-lhe que sacrificasse o filho. Na tradição islâmica trata-se geralmente de Ismael, na Bíblia é Isaac. Quando Ibrahim estava prestes a obedecer, Deus poupou o filho. Em seu lugar foi sacrificado um carneiro. A festa coincide com o hajj, a peregrinação a Meca. Todos os muçulmanos a celebram, também quem não está em peregrinação.
Por gratidão, os muçulmanos que têm meios para isso sacrificam uma ovelha, uma cabra ou por vezes um bovino. A carne é geralmente dividida em três partes: para a própria família, para parentes e amigos e para os pobres. Em Portugal, cerca de 36 500 pessoas declararam-se muçulmanas nos Censos de 2021; no Brasil, cerca de 41 000 no Censo de 2022. Nem todos mandam abater um animal.
As regras em Portugal
- O regulamento europeu exige o atordoamento antes do abate. Portugal aplica a exceção para o abate religioso: só é permitido com uma autorização especial da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), num matadouro.
- Em 2023 foram abatidos em Portugal 7,06 milhões de animais segundo o rito halal, quase todos aves: cerca de 3 por cento dos animais abatidos nessas espécies. Em 2024 já eram 9,4 milhões. Quase todos foram atordoados antes.
As regras no Brasil
- O regulamento do abate humanitário (Portaria 365/2021) exige o atordoamento antes da sangria. A exceção é o abate segundo preceitos religiosos, quando a carne se destina a uma comunidade religiosa que o pede ou à exportação para países que o exigem.
- Os bovinos e outros ruminantes têm de ficar imobilizados numa caixa de contenção até estarem insensíveis. As aves podem ser atordoadas com eletricidade logo a seguir ao corte, se a autoridade religiosa o permitir.
- O Brasil é o maior exportador de carne halal do mundo, sobretudo de frango.
E no resto da Europa?
O regulamento europeu exige o atordoamento, mas os países podem abrir uma exceção para o abate religioso. Cada vez mais países não o fazem.
- Proibição do abate sem atordoamento: Suécia, Dinamarca, Eslovénia, Flandres e Valónia (desde 2019). Fora da UE: Noruega, Suíça e Islândia.
- Atordoamento obrigatório logo após o corte: Áustria, Estónia, Letónia e Grécia. Na Finlândia, o corte e o atordoamento têm de ser feitos ao mesmo tempo.
- Na Região de Bruxelas, o parlamento votou contra uma proibição em 2022.
- Nos Países Baixos, por exemplo, um animal que ainda esteja consciente 40 segundos após o corte tem de ser atordoado (desde 2018). Ali, o número de animais abatidos para a Festa do Sacrifício desceu de mais de 65 000 em 2017 para pouco mais de 24 000 em 2025.
O Tribunal de Justiça da União Europeia (2020) e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (2024) decidiram que tal proibição é permitida: o bem-estar animal pode limitar a liberdade religiosa.
Existe uma alternativa
Cada vez mais muçulmanos já não mandam abater um animal para a Festa do Sacrifício. Muitos dão o dinheiro a uma organização humanitária, que em seu nome manda abater um animal num país pobre e distribui a carne por quem não a pode comprar. Alguns muçulmanos escolhem uma refeição festiva sem carne. Nos Países Baixos, por exemplo, o número de animais abatidos para a Festa do Sacrifício desceu quase dois terços entre 2017 e 2025.
Os sábios islâmicos não estão de acordo sobre se o sacrifício é obrigatório. A escola hanafita, seguida pela maioria dos muçulmanos turcos, considera-o um dever (wajib) para quem tem meios. A escola maliquita, seguida pela maioria dos muçulmanos marroquinos, considera-o uma prática fortemente recomendada (sunna). Em todos os casos trata-se de gratidão e de partilhar com quem tem menos.
Um donativo poupa a um animal aqui uma morte angustiante, mas noutro lugar continua normalmente a ser abatido um animal. A alternativa verdadeiramente amiga dos animais é dar dinheiro ou alimentos sem que morra um animal. Quem ainda assim quiser um abate ritual, escolha de preferência um animal atordoado antes. Seria ótimo se os muçulmanos renunciassem por completo ao sacrifício de animais. Isso poupa sofrimento animal e traria muita simpatia. Seria bom também que os governos reduzissem ainda mais o sofrimento animal no abate. A Bélgica e a Dinamarca mostram que o atordoamento obrigatório é possível.
A verdadeira gratidão não exige sofrimento animal.
Fontes: DGAV, números de 2020–2024 na verificação de factos da Lusa (DNoticias, 22 de junho de 2025); INE, Censos 2021; IBGE, Censo 2022; Portaria SDA/MAPA 365/2021 (abate humanitário); Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil (exportação halal); NVWA, Festa do Sacrifício (em neerlandês); números da NVWA no Reformatorisch Dagblad (27 de maio de 2026); EFSA, Welfare of cattle at slaughter (2020); Temple Grandin; Food Standards Agency, Slaughter method survey 2018; Library of Congress, Legal Restrictions on Religious Slaughter in Europe (2018); VRT (13 de fevereiro de 2024); NOS (9 de julho de 2022). Atualizado em outubro de 2026. |