O peixe é uma boa alternativa à carne?

Este é um artigo extenso. Está organizado como um percurso: seis paragens ao longo da linha principal, com desvios para quem quiser aprofundar.

Como quer ler?
  1. 1Uma boa alternativa à carne?
  2. 2Peixe selvagem: pesca-se demasiadoA · Bacalhau, arenque e sardinhaB · Capturas acessórias
  3. 3Peixe de aquiculturaC · Peixe para peixe
  4. 4Dor, medo e stress
  5. 5Como se matam os peixesD · A enguia
  6. 6ConclusãoE · SaúdeF · Rótulos

A linha verde é a linha principal do artigo. Os ramos amarelos são desvios: aprofundamento que pode saltar sem perder o fio. Clique numa paragem ou num desvio para ir diretamente; com o botão de retrocesso do seu navegador (página anterior) volta aqui ao mapa.

Paragem 1 de 6 · Uma boa alternativa à carne?

O peixe: uma boa alternativa à carne?

O peixe é uma boa alternativa à carne? Muitas pessoas fazem esta pergunta, sobretudo quando querem comer menos carne ou deixar de a comer. O peixe teve durante muito tempo a fama de ser mais saudável e melhor para o ambiente. Neste artigo analisamos as consequências de comer peixe para as pessoas, os animais e o ambiente. O peixe é capturado em liberdade ou vem de uma piscicultura. Ambos têm as suas próprias consequências.

No mundo come-se cada vez mais peixe. Segundo a FAO, em 2022 a população mundial comeu em média 20,7 quilos de peixe e outros animais aquáticos por pessoa, mais do dobro do que em 1961. Portugal é o país da União Europeia que mais peixe come: 53,6 quilos por pessoa em 2023 (em peso vivo), mais do dobro da média europeia. O peixe mais comido é o bacalhau. No Brasil come-se muito menos peixe: segundo as estimativas, entre 8 e 11 quilos por pessoa por ano.

Paragem 2 de 6 · Peixe selvagem: pesca-se demasiado

Peixe selvagem: pesca-se demasiado

arrastãoA pesca e a aquicultura mundiais produziram juntas 223 milhões de toneladas em 2022. Pela primeira vez, mais de metade dos animais aquáticos veio da aquicultura. O número de peixes capturados todos os anos em liberdade é quase inimaginável: estima-se entre 1,1 e 2,2 biliões. São muito mais animais do que todos os animais de criação do mundo juntos.

Em 2025 a frota portuguesa capturou 166 872 toneladas de peixe, sobretudo sardinha, cavala e carapau. Estavam licenciadas 3 501 embarcações. Mesmo assim, Portugal come muito mais peixe do que pesca: as importações de produtos da pesca valem quase o dobro das exportações. Segundo a FAO, em 2021, 37,7% das populações de peixes do mundo estavam sobre-exploradas.

A sobrepesca é um problema mundial. Já em 2003 biólogos da Universidade de Dalhousie, no Canadá, calcularam que o número de grandes peixes predadores, como o espadim, o atum, o bacalhau, o alabote e o espadarte, tinha diminuído 90 por cento em cinquenta anos. Além disso, os peixes que restam são cada vez mais pequenos, porque os maiores são pescados primeiro. Alguns nunca chegam a reproduzir-se.

Desvio A · Bacalhau, arenque e sardinha (± 1 min)

Bacalhau, arenque e sardinha

Já em 2003 defensores do mar avisaram que, após anos de pesca intensiva, o bacalhau estava prestes a desaparecer do mar do Norte. Mais de vinte anos depois ainda não recuperou. Segundo o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES), a população de bacalhau do sul do mar do Norte está abaixo do limite crítico, o que põe em risco a sua reprodução. As outras duas populações estão abaixo do nível sustentável. O parecer para 2026 foi mesmo adiado. O bacalhau que se come em Portugal, cerca de 16 quilos por pessoa por ano, é quase todo importado, sobretudo da Noruega.

Pode ser de outra maneira. No final dos anos setenta o arenque tinha quase desaparecido no mar do Norte e recuperou após uma proibição temporária de pesca. Também a solha está bem hoje.

A sardinha ibérica é outro exemplo. Desde 2009 a população estava abaixo do limite biológico de segurança. Em 2017 o ICES chegou a avisar que Portugal talvez tivesse de parar a pesca da sardinha durante quinze anos. Com capturas muito reduzidas e paragens de vários meses, a população recuperou: a biomassa reprodutora passou de 120 000 toneladas em 2015 para 451 000 toneladas em 2021. Ainda hoje a pesca da sardinha fecha todos os invernos durante alguns meses. Isto mostra que o mar recupera quando o ser humano o deixa em paz.

Desvio B · Capturas acessórias (± ½ min)

Capturas acessórias

golfinho feridoAs redes não fazem distinção. Para as baleias, os golfinhos e os botos são muitas vezes "muros da morte": os animais veem as redes tarde demais, ficam presos e já não conseguem subir à superfície para respirar. Estima-se que cerca de 300.000 cetáceos morrem assim todos os anos como capturas acessórias. As grandes redes de deriva estão proibidas no alto mar desde 1992 e na União Europeia desde 2002, mas as redes de emalhar e de arrasto continuam a fazer muitas vítimas, também entre aves marinhas, tubarões e tartarugas.

Também em Portugal muitos golfinhos morrem nas redes. No relatório à União Europeia sobre o estado do mar (2022), Portugal considerou excessiva a mortalidade por captura acidental do golfinho-comum, do boto e do roaz. No Brasil, a toninha (ou franciscana), um pequeno golfinho costeiro, está criticamente ameaçada; a sua principal ameaça são as redes de emalhar.

Paragem 3 de 6 · Peixe de aquicultura

Peixe de aquicultura

Desde 2022 vem mais peixe da aquicultura do que do mar. Em Portugal a aquicultura produziu 19 826 toneladas em 2024, sobretudo pregado, amêijoa, ostra, dourada e robalo. No Brasil a aquicultura é muito maior: em 2025 produziu mais de um milhão de toneladas de peixe, das quais cerca de 70% de tilápia. Nas instalações os peixes nadam apertados em tanques ou jaulas, sem fundo, sem plantas e sem espaço para migrar.

A enguia mostra até onde isto vai. A enguia europeia consta desde 2008 da Lista Vermelha como criticamente ameaçada. A enguia não se reproduz em cativeiro: cada enguia de aquicultura começou como meixão capturado em liberdade. A criação de enguias continua, portanto, a retirar animais de uma espécie ameaçada. Em Portugal o meixão só pode ser pescado no rio Minho, com um número limitado de licenças. Mesmo assim, há muito contrabando de meixão vivo para a Ásia, onde se criam as enguias.

Desvio C · Peixe para peixe (± ½ min)

Peixe para peixe

Os peixes de aquicultura também têm de comer. Durante muito tempo grande parte da ração era farinha e óleo de peixe, feitos de peixes selvagens como o galeota, a espadilha e a anchova. Antigamente eram precisas mais de três toneladas de peixe selvagem para produzir uma tonelada de salmão. A parte de farinha de peixe na ração diminuiu entretanto, mas foi substituída sobretudo por soja. A aquicultura só resolve em parte o problema dos mares vazios e desloca uma parte para os campos.

As pisciculturas também produzem estrume. Investigações na Noruega mostraram cedo que as explorações de salmão em jaulas abertas são uma grande fonte de fosfato e azoto. A isso juntam-se doenças e piolhos do mar, que também se espalham ao salmão selvagem.

Paragem 4 de 6 · Dor, medo e stress

Dor, medo e stress nos peixes

Os peixes podem sentir dor, medo e stress? Esta pergunta determina em grande parte a forma como tratamos os peixes. A dor é uma experiência subjetiva e não pode ser provada sem dúvida em nenhum animal, nem sequer num cão. Pode, no entanto, tornar-se plausível que um animal sente dor. Para isso usam-se três critérios:

  1. existem semelhanças anatómicas e fisiológicas com o ser humano;
  2. o animal evita estímulos desagradáveis;
  3. os analgésicos têm um efeito demonstrável.

Os peixes cumprem os três. Em 2003 investigadores na Escócia mostraram que as trutas têm recetores de dor. As trutas a quem foi injetado veneno de abelha ou ácido acético nos lábios começaram a comportar-se de outra maneira: esfregavam os lábios no fundo e comiam menos. Desde então as provas só se tornaram mais fortes. Em 2024 centenas de cientistas assinaram a New York Declaration on Animal Consciousness, que afirma que a experiência consciente nos peixes é uma possibilidade realista que temos de ter em conta.

Já em 2003 o Conselho neerlandês para os Assuntos dos Animais afirmou que os peixes, como outros vertebrados, conhecem a dor, o medo e o stress e que por isso não devem ser tratados de forma diferente pela lei. Em Portugal, o Código Civil reconhece desde 2017 que os animais são seres vivos dotados de sensibilidade. Em 2024 a Comissão Europeia anunciou que a revisão da legislação sobre o bem-estar animal incluirá regras mais precisas para o abate de peixes de aquicultura.

Para a Animal Freedom estas provas são bem-vindas, mas não decisivas. Também um peixe tem direito à liberdade e não tem de o provar primeiro.

Paragem 5 de 6 · Como se matam os peixes

Como se matam os peixes

A forma como os peixes são mortos determina em grande parte quanto sofrem. Para os mamíferos e as aves existem regras rigorosas de atordoamento e abate. Para os peixes quase não existem: o regulamento europeu sobre o abate só exige que lhes seja poupada a dor evitável. Alguns países vão mais longe: nos Países Baixos, por exemplo, a enguia de aquicultura tem de ser atordoada antes do abate desde 2018. Em Portugal não existe uma obrigação deste tipo. No Brasil, o regulamento do abate humanitário (2021) aplica-se aos anfíbios e répteis, mas não aos peixes. Para os milhares de milhões de peixes capturados em liberdade não existe qualquer regra. Seguem-se os principais métodos de abate.

Asfixia

Ao contrário do que muitos pensam, um peixe não morre depressa fora de água. Os arenques só morrem asfixiados ao fim de cerca de 35 minutos, o bacalhau e a badejinha ao fim de uma hora. O linguado e a solha demoram ainda mais: só morrem ao fim de cerca de quatro horas.

Evisceração em vida

Na evisceração o peixe é aberto vivo para lhe retirar as vísceras e o sangue. Isso não o mata de imediato. Os arenques, os linguados e as solhas-escuras podem viver ainda 10, 30 e 35 minutos, as solhas até 50 minutos. Muitas vezes deixa-se primeiro os peixes asfixiar no ar durante 7 a 20 minutos e só depois são eviscerados vivos.

Desvio D · A enguia (± 1 min)

A enguia

No corte da nuca a enguia recebe um corte atrás da cabeça que corta a medula espinal. O fornecimento de oxigénio ao cérebro mantém-se. Se o animal for depois aberto, isso acontece possivelmente enquanto está consciente.

Pior ainda era o banho de sal: deitava-se sal sobre a enguia viva para lhe retirar a camada de muco. O sal atua na pele como queimaduras e danifica as guelras. A enguia faz movimentos violentos durante muito tempo para fugir. Este método está agora proibido nos Países Baixos. Mesmo assim, em 2020 descobriu-se que alguns criadores de enguias ainda as abatiam sem atordoamento.

Por vezes os peixes nem sequer são mortos. No finning cortavam-se as barbatanas e o tubarão vivo era devolvido ao mar. Desde 2013 os tubarões têm de ser desembarcados na União Europeia com as barbatanas presas ao corpo, mas no mundo esta prática continua.

Paragem 6 de 6 · Conclusão

Conclusão

O peixe é uma boa alternativa à carne? Para o ambiente o peixe é muitas vezes um pouco menos prejudicial do que a carne, porque os peixes não têm de manter o corpo quente e precisam de menos alimento. Mas a vantagem acaba aí. Pesca-se muito mais peixe do que o mar aguenta. Os peixes de aquicultura vivem sem liberdade e dependem em parte de peixe selvagem e de soja. E os peixes sentem dor, enquanto na captura e no abate recebem menos proteção do que qualquer outro animal.

Para quem se preocupa com os animais, o peixe não é uma boa alternativa à carne. Uma alternativa vegetal é a escolha mais lógica. Os ácidos gordos ómega-3 pelos quais o peixe é conhecido não são produzidos pelos próprios peixes: eles obtêm-nos das algas. Por isso o óleo de algas é uma boa fonte sem peixe.

Desvio E · Saúde (± ½ min)

Saúde

O peixe gordo, como o arenque, a cavala, a sardinha e o salmão, é conhecido pelos ácidos gordos ómega-3 EPA e DHA. São bons para o coração e os vasos sanguíneos. Mas o peixe também contém substâncias indesejadas. Os grandes peixes predadores acumulam mercúrio. Por isso um grupo de trabalho coordenado pela DGAV aconselha as grávidas, as mulheres a amamentar e as crianças até aos 10 anos a comer peixe no máximo 3 a 4 vezes por semana e a evitar o atum fresco, o cação, o espadarte, a maruca, a pata-roxa, o peixe-espada e a tintureira. Além disso, segundo a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), o peixe é a principal fonte alimentar dos PFAS mais conhecidos. Quem não come peixe pode obter ómega-3 do óleo de algas, da linhaça e das nozes.

Desvio F · Rótulos (± ½ min)

Rótulos

Nos produtos de peixe tem de constar a espécie, a origem e se o peixe é selvagem ou de aquicultura. Os rótulos dizem algo sobre a pesca ou a criação, mas pouco sobre o bem-estar do próprio peixe.

  • MSC (Marine Stewardship Council): para peixe selvagem de uma pescaria que não esgota a população. Fundado em 1997 pelo WWF e pela Unilever, independente desde 1999.
  • ASC (Aquaculture Stewardship Council): desde 2010 o equivalente do MSC para peixe de aquicultura.
  • Biológico UE: para peixe de aquicultura biológica, com menos peixes por metro cúbico e ração biológica.
  • Dolphin safe: um rótulo da própria indústria pesqueira para atum capturado sem que golfinhos caiam nas redes. Não é uma certificação oficial.

Fim do percurso

Mais informação

Sobre a pesca desportiva pode ler mais em Not on the hook (em inglês).

Fontes: FAO, O estado mundial da pesca e da aquicultura 2024; EUMOFA, perfil de Portugal (consumo 2023); Conselho Norueguês dos Produtos do Mar (bacalhau, 2026); Ministério da Pesca e Aquicultura do Brasil e FAO (consumo no Brasil); INE, Estatísticas da Pesca 2025; Peixe BR, Anuário 2026; pareceres do ICES 2025 e 2026; DGRM, plano de gestão da sardinha 2021-2026; relatório de Portugal sobre a Diretiva-Quadro Estratégia Marinha (2022); Projeto Toninhas e ICMBio; Capitania do Porto de Caminha (meixão); fishcount.org.uk (número de peixes capturados); Myers e Worm, Nature (2003); Sneddon e outros, Proceedings of the Royal Society (2003); New York Declaration on Animal Consciousness (2024); Raad voor Dieraangelegenheden (2003); Lei 8/2017; Portaria SDA/MAPA 365/2021; Vissenbescherming (atordoamento da enguia de aquicultura, 2020); DGAV e outros, recomendações para o consumo de pescado (2023); EFSA (PFAS, 2020).

Este artigo baseia-se num artigo de René Houkema (2003) e foi reescrito e atualizado em 2026.